Estilo/Decoração
A engenheira que aprendeu a dobrar o tempo dentro do barro
Para Aline Nunes, o forno decide — e é exatamente isso que a fascina. A ceramista porto-alegrense passou três anos aprendendo o que a argila aceita e o que ela recusa, antes de apresentar ao mundo uma marca onde nenhuma peça se repete e nenhum ambiente fica igual ao outro.
Tem uma lógica estranha no percurso de Aline Nunes. Ela nasceu em Criciúma — cidade cujo chão guarda um dos maiores polos cerâmicos do país, responsável por abastecer apartamentos e casas de costa a costa com revestimentos industriais. Cresceu rodeada por cerâmica sem jamais tocar nela. Formou-se em Engenharia de Alimentos, abriu empresa, gerenciou processos, trabalhou com precisão e escala. E foi exatamente esse repertório — tão distante do ateliê — que a preparou para chegar nele.
A cerâmica veio depois. Não como hobby de fim de semana, mas como uma escolha construída à mão, queima após queima. Aline passou três anos a portas fechadas no ateliê que mantém em Porto Alegre, na Avenida Bagé para entender o material. Para descobrir o que a argila aceita e o que ela recusa. Para aprender a diferença entre uma peça finalizada e uma peça pronta.
O resultado desse tempo é uma marca com três coleções — Ânima, Manifesto do Agora e Jogos de Tabuleiro — que propõem algo diferente do que costuma aparecer nas prateleiras de décor. Não são objetos decorativos no sentido comum da palavra. São, antes, sistemas — módulos que se combinam, que dependem da parede para existir, que mudam de acordo com quem os organiza.

COLEÇÃO ÂNIMA
A mais direta na proposta: módulos cerâmicos rejuntados que viram revestimento permanente, com paginação única. A escolha do acabamento, da paleta e do formato gera uma obra exclusiva — o que significa que dois apartamentos com a mesma coleção nunca vão parecer iguais. É cerâmica como decisão de projeto, não como produto.

MANIFESTO DO AGORA
Peças avulsas penduradas na parede que, juntas, formam uma imagem. A instalação pode seguir a sugestão da ceramista ou a do arquiteto responsável pelo ambiente — o que coloca a coleção numa conversa direta com o design de interiores, sem tentar dominá-lo.

JOGOS DE TABULEIRO
Nasceram de outro lugar: do convívio com os filhos nos primeiros anos de ateliê. As peças retomam o jogo da velha, o resta um — e aproveitam as aparas dos módulos maiores, transformando o que seria descarte em objetos de mesa. A sustentabilidade aqui não é manifesto: é consequência.
Aline define sua relação com o material de forma precisa: a cerâmica traz consigo a experiência sensorial de trabalhar moldando algo natural, de entender o processo de criação e as possibilidades de queima da argila. Por isso, diz ela, está em constante aprendizagem — no Brasil e no exterior.
O que ela não diz, mas o trabalho sugere, é que essa aprendizagem não é sobre técnica apenas. É sobre saber esperar. Sobre entender que o forno decide. Sobre confiar que o que entra como barro pode sair como arte — ou não sair. Essa incerteza, que assustaria a engenheira de alimentos que ela foi, é exatamente o que a ceramista que ela se tornou aprendeu a respeitar.
Aline Nunes em cinco perguntas
Você nasceu em Criciúma, no coração do polo cerâmico catarinense — mas sua formação foi em Engenharia de Alimentos. O que veio primeiro: a decisão de largar a engenharia ou o encontro com a argila?
Vendi uma empresa de lanches infantis saudáveis e, por alguns meses, fiquei pensando o que faria. Um dia apareceu uma publicação sobre cerâmica e me interessei. Fiz meu primeiro curso em Porto Alegre e me apaixonei. Isso tudo foi em 2023.
Três anos de ateliê fechado antes de mostrar o trabalho ao mundo. O que esse tempo protegeu — e o que ele custou?
Comecei na cerâmica em 2023 e me deparei com um mundo imenso, de infinitas possibilidades. Foi difícil definir para que lado deveria ir — então passei esses anos experimentando, testando, fazendo cursos em técnicas completamente diferentes umas das outras. Os custos foram somente financeiros. A cerâmica traz muitas coisas boas: o aprendizado e a provocação pelo novo são constantes — e sem dúvida intermináveis.
Suas coleções dialogam diretamente com arquitetos e projetistas de interiores. Como você pensa a relação entre uma peça sua e o ambiente em que ela vai viver? Existe um limite onde a cerâmica para e o projeto começa?
A casa é nosso refúgio, o lugar onde buscamos conexão e plenitude. Por isso, acredito que cada peça precisa pertencer ao espaço — carregar identidade e dialogar com a história, as memórias e os afetos de quem vive ali. Nos projetos personalizados, todo esse universo é considerado para que a cerâmica não seja apenas um objeto, mas parte viva daquele ambiente. Quanto ao limite: por envolver transformações físicas e térmicas complexas, a cerâmica nem sempre permite reproduzir exatamente o que foi idealizado no projeto.
A Coleção Ânima propõe um revestimento que é também uma obra única — impossível de replicar. Num mercado acostumado à padronização, como você entende o cliente que opta pelo exclusivo?
O cliente que opta pelo exclusivo busca algo que tenha identidade e presença. Em um mercado acostumado à repetição, ele valoriza o que carrega gesto, tempo e intenção — algo feito pelas mãos e pelo coração, que nunca se repetirá exatamente da mesma forma.
Os Jogos de Tabuleiro nasceram do convívio com seus filhos. O quanto a vida fora do ateliê entra no que você produz dentro dele?
No universo da cerâmica artesanal é difícil separar vida e ateliê. Tudo se mistura. Muitas ideias nascem do convívio, dos momentos em família. Os Jogos de Tabuleiro surgiram assim: de algo vivido com meus filhos que acabou encontrando forma na cerâmica.
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