Estilo/Decoração

A pasteurização dos espaços

A pasteurização dos espaços chegou para ficar. Mas as casas com identidade são as que ficam na memória.

 

Tenho um certo pânico de casas que parecem ter sido produzidas em série. Você entra em uma, entra em outra e, por alguns segundos, não sabe se mudou de endereço ou se está preso no mesmo apartamento decorado.

É a mesma paleta bege, o mesmo sofá curvo, a mesma poltrona "orgânica", o mesmo ripado, a mesma pedra, o mesmo vaso cuidadosamente posicionado sobre três livros que, provavelmente, ninguém nunca abriu. Tudo muito correto. Tudo muito bonito. Tudo absolutamente esquecível.

Não tenho nada contra o bege, quer dizer, tenho um pouco de preguiça, mas o meu problema mesmo é quando até a personalidade entra na cartela dos neutros.

A pasteurização dos espaços pode ser resultado de três coisas: falta de criatividade, acomodação profissional ou desejo de pertencimento. Às vezes, das três juntas — um verdadeiro combo da ausência de identidade.

A falta de criatividade aparece quando a referência deixa de ser ponto de partida e vira destino. O profissional vê o que está funcionando, reproduz a fórmula e entrega mais uma versão do cenário que já circulou quinhentas vezes pelo Instagram. A inspiração, que deveria provocar novas ideias, transforma-se em manual de instruções. Troca-se a autoria pelo algoritmo.

Já a acomodação é mais discreta. Criar exige pesquisa, repertório, escuta, coragem e, principalmente, disposição para sair do automático. É muito mais fácil repetir uma solução aprovada do que investigar quem realmente vai viver ali. Só que a arquitetura não deveria funcionar como receita de bolo: duas xícaras de tendência, uma bancada escultural, uma pitada de design assinado e pronto, o post perfeito está no ar!

Mas existe também o desejo de pertencimento. O cliente vê determinadas casas, associa aquela estética a sucesso, sofisticação e status e acredita que, ao reproduzi-la, passará a fazer parte daquela mesma bolha. Como se ter o mesmo sofá, a mesma pedra e a mesma luminária fosse uma espécie de passaporte social.

E eu entendo. Todos nós queremos pertencer. O problema começa quando, para pertencer a um grupo, deixamos de pertencer a nós mesmos.

Uma casa pode ser linda e, ainda assim, não dizer absolutamente nada sobre quem mora nela. Pode impressionar as visitas, render boas fotografias e até receber muitos elogios. Mas, se poderia pertencer a qualquer pessoa, talvez não pertença verdadeiramente a ninguém.

É aí que os lares viram vitrines. Os ambientes se tornam showrooms impecáveis, organizados para serem vistos, mas não necessariamente sentidos. Falta memória, humor, afeto, estranheza, herança, cultura. Falta aquele objeto que não combina com nada, mas combina profundamente com o morador. Falta vida fora do catálogo.

Autenticidade não significa encher a casa de cores, estampas ou objetos. Também não é uma defesa do maximalismo contra o minimalismo. Um espaço pode ser contido e ter uma identidade imensa. Pode ser exuberante e continuar vazio de significado. A questão não é a quantidade de elementos, mas a quantidade de verdade.

Projetar com essência exige ir além da pergunta "do que você gosta?". É preciso descobrir de onde essa pessoa veio, o que ela viveu, o que deseja preservar e como quer se sentir. Exige coragem do profissional para não entregar apenas o que está na moda — e coragem do cliente para não escolher somente aquilo que será facilmente aprovado pelos outros.

Porque tendência pode até entrar em casa. Só não deveria receber a escritura.

No final, o verdadeiro luxo talvez seja este: entrar em um ambiente e reconhecer imediatamente quem vive ali. Perceber que cada escolha tem intenção, que existem histórias por trás dos objetos e que aquela casa não foi montada para parecer com alguma coisa.

Ela foi criada para representar alguém.

Casas genéricas podem ser bonitas. Mas casas com identidade ficam na memória.

E, entre uma casa que impressiona e uma casa que representa, eu continuo escolhendo a segunda. Sempre.