Estilo/Moda

Fendi SS27: Maria Grazia Chiuri coloca a lingerie na passarela e a liberdade em destaque

Na segunda coleção da designer à frente da Maison romana, Raffaella Carrà, um espelho de Luciano Fabro e um poema de E.E. Cummings definem uma coleção sobre desejo, liberdade e o ponto onde o masculino e o feminino param de se separar.

 

 

Há uma pergunta que acompanha Maria Grazia Chiuri desde que assumiu a direção criativa da Fendi em outubro de 2025: ela consegue fazer a Fendi parecer Fendi de uma forma nova? A coleção SS27, apresentada em 23 de setembro na sede da Maison em Milão, não responde à pergunta. Faz algo mais interessante: torna a pergunta irrelevante.

O ponto de partida foi o underwear. Não como metáfora, não como provocação, mas como estrutura real da coleção. Sutiãs, slips e camadas íntimas migraram para a superfície, exaltados por rendas, bordados e uma variedade de cores que expressam um corpo à vontade com o prazer de se revelar. A camada intermediária que sempre existiu embaixo de tudo se tornou o elemento definidor da coleção.

A referência cultural central foi Raffaella Carrà, figura extraordinária da cultura pop italiana que transformou os palcos em território de subversão e independência feminina. Chiuri a convocou como exemplo de algo que a Fendi já conhecia bem: enquanto Raffaella libertava o umbigo e escrevia canções devotadas à liberação sexual feminina, as irmãs Fendi arrancavam os forros dos casacos de pele e lideravam um negócio como cinco mulheres, o que era igualmente radical no sistema patriarcal da moda dos anos 1970.

No centro da passarela, o espelho. Não como elemento decorativo, mas como dispositivo conceitual: uma instalação inspirada em Cubo di Specchi, de Luciano Fabro, que multiplicou os corpos dos dançarinos de Prisencolinensinainciusol de Adriano Celentano e forçou o público ao confronto com a própria imagem refletida. O espelho como superfície do reconhecimento diário e solitário de si mesmo, agora tornado coletivo.

As roupas seguiram essa lógica de encontro e combinação. Brilho e opacidade. Leveza e peso. Seda e animal print. Renda, bordado, intársia. Silhuetas fluidas, camadas delicadas e as bolsas icônicas da Fendi definem a visão mais recente de Chiuri para a casa, com a Peekaboo e a Baguette chegando em exóticos como enguia e crocodilo, e a franja de volta no vocabulário da Maison. Um robe que sai do ambiente doméstico para ganhar as ruas. Veludo e pergaminho. Punk e bourgeois. Sapatos-joia.

 

 

 

Homens e mulheres dividiram a passarela em condições de igualdade, atravessando as fronteiras do vestuário associado a cada gênero sem que isso precisasse ser anunciado. A coleção simplesmente fez. O SS27 parece menos um começo do que uma colisão entre dois arquivos: o arquivo Fendi de materiais, artesanato e identidade romana, e o arquivo pessoal de Chiuri de mulheres, corpos, objetos e referências culturais.

Para Chiuri, a leveza é a essência da Fendi. E nessa coleção, leveza não significa superficialidade. Significa que as roupas não tentam conter os corpos. Celebram o que eles já são.