Estilo/Moda

Craft, artesanato e identidade: o Brasil na linha de frente do que a moda mundial quer ser

Enquanto o mundo redescobre o valor do feito à mão, dois projetos brasileiros provam que artesanato, design e identidade cultural sempre estiveram juntos — e que o Brasil nunca precisou esperar por essa tendência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 2025, a Bottega Veneta lançou uma campanha chamada "Craft is Our Language" para celebrar cinquenta anos do seu trançado Intrecciato, feito à mão. A Woolmark Prize daquele mesmo ano destacou o retorno ao feito à mão entre seus finalistas. O mercado global de artesanato foi avaliado em mais de 906 bilhões de dólares e deve chegar a 1,94 trilhão até 2033. Aproximadamente 70% dos consumidores declaram estar dispostos a pagar mais por produtos feitos à mão.

O mundo descobriu o que o Brasil já praticava. A renda de bilro existe no litoral cearense há séculos. A palha da carnaúba é matéria e cultura ao mesmo tempo. A rede de travessa é técnica transmitida de mãe para filha, aprendida entre os cinco e os doze anos, guardada na memória do corpo antes de qualquer palavra. Não é tendência. É saber.

O Ceará que transforma técnica em design

No litoral oeste do Ceará, o Projeto Raízes reuniu o Instituto Camboa e a Catarina Mina para transformar saberes artesanais de Acaraú e Itarema em uma coleção de peças para casa e decoração. Renda de tramoia, renda de bilro, linho de palha da carnaúba e rede de travessa saem das mãos de 31 artesãs e chegam a uma coleção de sete itens desenvolvidos no encontro entre o conhecimento das artesãs e o olhar de design da Catarina Mina.

Os dados do levantamento do projeto dizem mais do que qualquer manifesto de marca: 87% das artesãs aprenderam o ofício com a mãe ou outro familiar. 83% começaram antes dos doze anos. Quase metade já ensinou ou ensina a técnica dentro da própria comunidade. O artesanato como transmissão de memória, renda e identidade, tudo ao mesmo tempo.

A proposta do Projeto Raízes vai além da coleção. A ideia é que hotéis, pousadas e empreendimentos do território incorporem produtos feitos pelas próprias artesãs da região, criando uma cadeia de valor local onde turismo e cultura se alimentam mutuamente em vez de se ignorar.

A palha que virou moda no Paraná

Do outro lado do Brasil, outra conversa entre artesanal e contemporâneo. Marcella Kozinski, Miss Universe Brasil, escolheu levar ao confinamento em Bandeirantes criações de estilistas nacionais de diferentes regiões, transformando suas aparições em vitrine para a moda feita no país.

Entre os looks está uma criação do Ateliê Costa Ribeiro, de Salvador, inspirada na Ilha do Mel, no litoral paranaense. A peça trabalha a palha em volumes, movimento e camadas que não tentam imitar a natureza, mas traduzi-la em linguagem de moda. A areia vira cor e textura. O vento vira movimento. A paisagem vira matéria.

O resultado mostra uma brasilidade que dispensa os atalhos óbvios. Não há bandeira, não há estampa tropical, não há símbolo de reconhecimento imediato. Há técnica artesanal e uma ilha do Paraná interpretada por um ateliê da Bahia. O Brasil como território criativo plural.

O que o mundo chama de novo luxo, o Brasil já chama de sempre

A Boston Consulting Group apontou em 2025 que artesania, acabamentos visíveis e produção cuidadosa passaram a ser os principais drivers de valor percebido na moda. O que antes era atributo de nicho se tornou argumento central de marcas que querem sobreviver além de uma temporada.

O Brasil não chegou atrasado a essa conversa. Ele estava dentro dela antes de ela ter nome. A renda de bilro do Ceará, a palha da carnaúba, a rede de travessa, a palha que vira vestido no Paraná — tudo isso já era design antes de virar tendência. A diferença agora é que o mundo parou para olhar. E o Brasil tem muito o que mostrar.