Estilo/Arte

Big Piercing perfura o Museu da Capital

Uma obra neerlandesa que nasceu da ideia de adornar edifícios como se fossem corpos chega ao acervo permanente de Brasília em celebração aos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Países Baixos.

Janet Vollebregt não veio para o Brasil construir uma obra. Veio para construir um hotel. O projeto não vingou, mas ela ficou. Percorreu o país com o marido, apaixonou-se por uma fazenda num cerrado em Alto Paraíso de Goiás, a poucos quilômetros do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, e ali viveu por quase uma década. A região fica sobre uma das maiores placas de cristal da Terra. Quando a NASA fotografa a área, ela emite luz. Para quem pesquisa energia, espaço e a relação entre o ambiente construído e o ser humano, não há lugar mais coerente para se instalar.
Arquiteta formada pela Universidade Técnica de Delft, nos Países Baixos, Vollebregt construiu uma trajetória que cruza arquitetura, arte e filosofia oriental. Ancorando sua pesquisa transdisciplinar numa perspectiva holística, seu trabalho propõe formas e espaços cujo propósito é oferecer experiências sensíveis, estabelecendo harmonia entre energias individuais e coletivas. Estudou Jin Shin Jyutsu, filosofia japonesa de cura energética, budismo e xintoísmo. Tudo isso entra na obra.
O conceito central do seu trabalho é tratar edifícios como organismos vivos. "Adornei o museu com um piercing gigante, pois vejo os edifícios como entidades vivas de uma frequência inferior à humana", explica a artista sobre o que fez no Museu Nacional da República em 2022, quando Big Piercing foi apresentada pela primeira vez ao público brasileiro na exposição Esférica / Nurturing Spheres.

A obra materializa o conceito de "perfurar a arquitetura": intervir nos edifícios como joias intervêm no corpo, com intenção simbólica, com cuidado estético e com a consciência de que aquilo que adorna também transforma. A inspiração vem do uso ancestral de joias e talismãs como elementos de proteção e identidade. "Meu trabalho é um convite para ver através das coisas, para ser consciente do invisível, mas sensível", define a artista em seu manifesto.
Que essa obra encontre Brasília faz todo sentido. Uma cidade que é ela mesma uma escultura habitável, concebida por Oscar Niemeyer com curvas que desafiam a gravidade e declarada Patrimônio Cultural da Humanidade, recebe agora uma obra que investiga exatamente a fronteira entre arquitetura, arte e presença humana.
Big Piercing integra o acervo permanente do Museu Nacional da República em celebração aos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Países Baixos. Dois países. Uma obra.