Estilo/Arte

Brasilina: a tinta vermelha do pau-brasil como metáfora de um país inteiro

Em Vitória, 32 artistas e designers brasileiros se reúnem para olhar para o Brasil além dos estereótipos e descobrir o que sobra quando a narrativa única vai embora

O Brasil é o único país do mundo com nome de árvore. O pau-brasil, que deu origem ao nome, também dá origem à brasilina, pigmento encontrado no cerne da madeira. Quando esse pigmento entra em contato com o ar e a luz, ele reage e forma a brasileína, uma tinta vermelha intensa, cor de brasa. O problema é que essa reação é sintoma de morte: ela acontece por podas drásticas, por cortes violentos na espécie.

Um país forjado pelo corte. Uma tinta que nasce da ferida. É esse o ponto de partida da exposição Brasilina, e já é suficiente para entender que não se trata de uma mostra celebratória no sentido fácil do termo.

Brasilina, com subtítulo Poéticas de uma Nação Mátria, foi idealizada por Isabela Castello e Fernando Caseira Nicolau e tem curadoria de Isabela Castello e Isabel Portella. Reúne 32 artistas e designers brasileiros na Galeria do Centro Cultural SESI, em Vitória, no Espírito Santo, de 1º a 30 de setembro. A produção é de Elaine Pinheiro, da ArtES Consultoria, e a exposição já nasce com a perspectiva de circular por outras cidades.

A estrutura da mostra se organiza em três eixos: Identidade, Natureza e Sociedade. Cada um propõe um ângulo diferente sobre o país. Identidade aborda as múltiplas formas de ser e pertencer ao Brasil. Natureza contempla a biodiversidade e as relações entre ser humano e meio ambiente. Sociedade reflete sobre os contrastes, desafios e transformações que constituem a vida brasileira.

Um dos conceitos centrais é o de nação mátria, uma visão do país como terra-mãe que gera, nutre e protege. A ideia propõe uma perspectiva mais afetiva e inclusiva de nação, ligada à terra, às ancestralidades e ao papel das mulheres na construção cultural e social brasileira.

Há também uma reflexão sobre a bandeira nacional. O lema Ordem e Progresso, inspirado no pensamento de Auguste Comte, originalmente fazia parte de uma formulação mais extensa que incluía a palavra amor. A exposição traz essa ausência para o campo artístico e propõe uma regeneração simbólica: amor como princípio, ordem como base, progresso como fim. Terra como corpo, cultura como cura, arte como fala.

Para a Decoranea, galeria dedicada à arte e ao design autoral que se lança ao mercado junto desta iniciativa, a exposição reafirma um compromisso com a produção criativa brasileira e com a aproximação entre arte e design como linguagens que se alimentam mutuamente.

Não existe uma única maneira de representar o Brasil. A Brasilina não tenta encontrá-la. Prefere mostrar que os vários Brasis podem coexistir na mesma sala, sem que nenhum deles precise cancelar o outro.