Estilo/Comportamento
Neuromania: Você é apenas o seu cérebro?
Premessa: Aqui escrevo sobre movimentos e tendências socioculturais em evolução que chegam via livros, mostras e feiras — numa curadoria sobre temas diversos, com a minha opinião de Trend Analyst que vive em Milão, nessa Europa ainda privilegiada para observar certas conversas. É, portanto, simplesmente o prazer de pensar em voz alta sobre o que está em mudança.
Recentemente li o livro Contro la Neuromania, de Paolo Legrenzi e Carlo Umiltà (2011), e foi a partir dessas leituras que encontrei Raymond Tallis e o conceito que ele cunhou: neuromania é a tendência crescente de explicar comportamentos humanos complexos — como emoções, decisões, criatividade, amor, fé — como se fossem apenas atividade cerebral, ou como se bastasse apontar para uma região iluminada num escâner para encerrar qualquer discussão sobre o que somos.
O problema, segundo eles, não é estudar o cérebro — é a colonização de outros campos por um vocabulário neurológico que não acrescenta nada além de aparência de rigor: neuromarketing, neuroestética, neurocriminologia... Em alguns casos usa-se "cognitivo" como versão mais soft, mas a operação é a mesma: desloca-se o foco da pessoa para o cérebro, da história para o neurônio.
O que me interessa como analista é outra coisa: quando uma linguagem se expande tão rápido e encontra tão pouca resistência, isso nunca é inocente. Penso, portanto, que a neuromania sobreviveu porque responde a uma demanda real nossa — de simplificação, de uma narrativa definitiva num mundo onde quase nada mais o é. Em resumo: se é o cérebro, não é culpa minha. Ou: se é biologia, não preciso mudar. Risos.
Por isso a questão não é só acadêmica: é sobre que tipo de explicação estamos dispostas a aceitar para nós mesmas — e de quem se beneficia quando deixamos de ser pessoas e viramos processos. Ou apenas cérebros.
É exatamente aí que pretendo continuar esta conversa, porque o que me fascina — e o que vou trazer por aqui — é justamente o que a neurociência séria já sabe, mas o discurso popular ainda ignora: que pensar, sentir e existir não acontece só no cérebro, e sim no corpo inteiro. Nos nervos, nos intestinos, na pele, no movimento, na respiração. Porque, atenção, cartesianos de plantão: o corpo também pensa!
E isso muda tudo sobre quem somos.
Leitura recomendada: Legrenzi, P. e Umiltà, C. — Contro la Neuromania (2011) · Tallis, R. — Aping Mankind: Neuromania, Darwinitis and the Misrepresentation of Humanity (2011)








