Gastronomia/
Ótimo, agora todo mundo é um crítico.
Perto de completar 20 anos escrevendo ou falando sobre gastronomia, tive o privilégio de assistir às grandes transformações da comunicação social e, também, o infortúnio de ter que lidar com os impactos de tais mudanças na minha própria carreira. Afinal, para quem gosta de ler e escrever, tentar se adaptar às novas mídias e contar histórias dentro do novo parâmetro de 140 a 280 caracteres ainda não me é nada fácil.
Eu cresci numa dessas famílias meio que obcecadas por comida. Seja pela escassez vivida na infância, seja pela descoberta posterior da boa mesa, meus parentes, realmente, vinculam o comer bem a estar bem. E isso me levou, em certa época da vida, a querer relatar minhas experiências positivas e negativas, com o intuito de, meramente, contar histórias enquanto falava de comida. Quem ama comer me entende. Esse é um assunto delicioso e inesgotável.
Para quem experimentou comer em restaurantes nos anos 80, 90 e 2000, sinto-me com bagagem suficiente para dizer que é bastante nítida a mudança da relação entre o cliente e o restaurante. E, pela primeira vez, me questiono se essas transformações foram evoluções de fato, pois me parece que ninguém mais está feliz ao comer fora.
Os motivos para comermos em restaurantes sempre foram inúmeros: o prazer de ser atendido, de não ter que lavar louça no fim de semana, provar um tempero diferente daquele do dia a dia, mas, principalmente, estar com outras pessoas. A comida sempre esteve tão relacionada à partilha, à conversa à mesa, que comer sozinho era até um tabu — gerava um certo desconforto. Afinal, se a comida estiver boa, com quem vou comentar? E se estiver ruim, idem.
A ideia era muito mais brincar sobre as falhas, invejar a escolha do outro que "acertou" no menu, dar uma reclamada com o garçom pelo atraso e exaltar tudo que estivesse gostoso, entre os membros da mesa. Ninguém parecia esperar perfeição e ninguém achava que o restaurante estava lá para atender um anseio completamente subjetivo e pessoal. Não, isso era promovido pela dinâmica da mesa: "Nossa, prova isso aqui!", "Amiga, não gostei do meu, quer trocar?", "Gente, tem pimentão e eu não sabia — será que peço para substituir o prato ou vai ser muita vergonha?". Esse era o escopo da avaliação gastronômica, pois, de resto, falávamos da vida, das conquistas e dos fracassos. A ideia era estar junto, torcer pelo melhor, comer algo que não se come em casa e levar consigo a lembrança do momento — e não fotos da comida.
Na qualidade de ciência humana, a gastronomia sempre lidará com uma margem considerável de erro. Até porque, entre a cozinha e o salão, existe uma miríade de caminhos e pessoas para fazer tudo acontecer — e pouquíssimos clientes conhecem ou querem aprender sobre eles.
De lá para cá, muita coisa mudou em casa: as cozinhas ganharam lava-louças, os ingredientes mais raros chegaram aos mercados comuns, aparelhos e aparatos nos permitem executar receitas complexas no conforto do lar e vários vídeos servem de tutorial para quem deseja aprender. Além disso, a avaliação gastronômica "saltou" das páginas dos jornais e das revistas especializadas e chegou ao mundo, literalmente, infinito da web.
Nem posso criticar a democratização inicial da escrita gastronômica, pois foi exatamente assim que comecei minha carreira, com um blog. Mas todos os envolvidos da época me pareciam, genuinamente, querer contribuir com esse mercado que ainda está em busca de identidade e, portanto, em permanente construção — unindo o gosto pela escrita ao gosto pela comida. Hoje, não consigo mais enxergar com tão bons olhos essa dinâmica ampla e irrestrita da crítica gastronômica por todo e qualquer cliente.
Pessoas reclamam do serviço, mas não admitem que estavam fora do horário de atendimento. Pessoas que fizeram uma receita especial uma única vez para os amigos alegam que "isso eu faço melhor em casa". Pessoas que destratam o garçom fazem críticas ao desempenho dele. Gente que nem gosta da culinária da casa faz questão de registrar uma nota baixa. São pedidos de steak tartare bem passado, carbonara sem ovo, cacio e pepe sem pimenta — e tudo isso enquanto se sentam em silêncio, olhando para as telas do celular e tirando fotos da comida que ninguém saberá dizer se chegou fria à mesa ou se esfriou enquanto se buscava o ângulo perfeito para a foto ser considerada food porn.
Registro, portanto, para esta primeira coluna, um desejo pessoal pela recuperação da partilha, do senso de humor perante as possíveis falhas — com exceção de casos extremos de incompetência, é claro — e da retomada da boa mesa não como um objetivo de perfeição, mas de busca constante pela excelência, de espaço para melhorias, pela criatividade, pelo sabor e, principalmente, pela captura delicada de um momento efêmero de alegria compartilhado através da comida.








