Estilo/Arte

Conheça as vitrines de Marta Penter

Pintora gaúcha transforma manequins de lojas europeias e americanas em superfícies onde cidade, moda e olhar se encontram, na série 2nd Skin, em cartaz na Califórnia

Quem ainda não conhece o trabalho desta artista brasileira deveria conhecer. Marta Penter nasceu em Porto Alegre, mantém ateliê na cidade e expõe com regularidade nos Estados Unidos desde 2010, em Nova York, São Francisco, Napa Valley e Montecito. A galeria Caldwell Snyder, em St. Helena, apresenta agora a 2nd Skin, sua série mais recente.

Formada em psicologia, Marta pinta o comportamento humano em óleo sobre tela, quase sempre em grandes formatos e numa escala de cinzas pontuada por notas raras de cor. O realismo é o ponto de partida. A pintura vai além dele.

Em 2nd Skin, o assunto aparente são manequins de vitrine em Paris, Madri, Copenhague, Nova York e São Francisco. Corpos longilíneos, roupas da estação, óculos escuros, bolsas de grife. Quanto mais se olha, mais o manequim se torna superfície. A rua atravessa o tronco de plástico, galhos de árvore pousam sobre um paletó risca de giz, fachadas deslizam por rostos sem expressão. Às vezes a própria artista surge no reflexo. Em outras, uma passante de celular na mão.

Quem vê as telas costuma supor montagem digital. Os reflexos são reais. Marta fotografa as vitrines, e a pintura reorganiza o que a câmera encontrou, trazendo alguns planos para a frente e deixando outros recuarem. Parte dessas fotografias, impressas em papel Hahnemühle em edições de oito exemplares, integra a mostra.

Os títulos das telas nomeiam experiências: Presence, Encounter, Embrace, Polis, Allure. A maior delas, Duality, pintada em 2026, mede 1,60 por 2,30 metros e coloca dois manequins de costas um para o outro, cada um vestido por uma cidade diferente.

O manequim tem longa história na arte. Giorgio de Chirico o pintou a partir de 1914 como duplo do artista contemplativo. Surrealistas e dadaístas exploraram o fascínio dos objetos fabricados. Andy Warhol colocou o glamour no mesmo plano da mercadoria. Marta leva o motivo ao século 21, o das redes sociais e do consumo em ritmo acelerado, e devolve ao espectador o tempo de olhar com calma.

A série inclui desenhos em óleo sobre papel com colagens feitas a partir das sobras de tinta da paleta. Lenços, gravatas, colares e golas aparecem em cor viva sobre figuras cinzentas, com algo das antigas bonecas de papel de recortar e vestir.

No Brasil, suas obras estão nos acervos do MARGS e do MACRS. Marta participou de exposições em museus da Coreia do Sul em 2015 e 2016 e de Mônaco em 2019. O artista e curador André Severo vê em sua pintura uma investigação da subjetividade, formada no intervalo entre o que o mundo mostra e a maneira como cada um percebe.