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Vinho de talha: a ânfora que guarda dois mil anos de Alentejo

A técnica romana que fermentou na terra portuguesa e hoje aguarda reconhecimento da Unesco como patrimônio da humanidade

O Alentejo é a maior região de Portugal e também uma das mais lentas, no melhor sentido da palavra. As paisagens abertas, o ritmo dos campos e a arquitetura das vilas guardam camadas de tempo que outras regiões europeias apressaram demais para apagar. Uma dessas camadas tem sabor: o vinho de talha, produzido há mais de dois mil anos nas mesmas ânforas de barro que os romanos introduziram nessa terra.

A talha é um recipiente de barro que pode chegar a dois metros de altura. Não há aço inoxidável, não há temperatura controlada por algoritmo. As uvas são esmagadas durante a vindima, o mosto vai direto para o barro e a fermentação acontece por conta própria. As películas sobem, formam uma camada na superfície, são quebradas e reincorporadas periodicamente até que desçam e se depositem no fundo, sinalizando que o processo terminou. A retirada do vinho se faz por uma torneira na parte inferior do recipiente: o bagaço no fundo filtra a bebida naturalmente, sem intervenção.

O ciclo começa em agosto, com as vindimas, e termina em novembro, quando as talhas são abertas. Tintos, brancos e até a variedade chamada de petroleiro, que combina uvas de ambas as cores, seguem o mesmo método. A bebida que resulta disso é encorpada, intensa, com personalidade que nenhum processo industrial reproduz.

Em 2023, a produção do vinho de talha foi inscrita no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial de Portugal. A candidatura à lista da Unesco aguarda nomeação.

Para conhecer essa tradição de dentro, duas adegas em Vila de Frades recebem visitantes. Na Honrado Vineyards, é possível participar das vindimas, da abertura das talhas e de uma masterclass com o enólogo da casa, que inclui prova de vinhos e petiscos alentejanos. A experiência passa também pela Adega-Museu Cella Vinaria Antiqua, espaço que preserva utensílios e técnicas originais. Na Adega Gerações da Talha, o roteiro começa em um jipe pelas vinhas, segue pelo Centro Interpretativo do Vinho de Talha, pela adega com degustação e termina nas ruínas romanas de São Cucufate, antiga vila agrícola onde já se produzia vinho há cerca de dois mil anos. O almoço alentejano completa o dia.

O Alentejo detém quatro títulos da Unesco e recebe reconhecimentos internacionais de turismo com regularidade. Mas o que nenhum prêmio captura completamente é o que acontece quando o vinho sai da talha: uma bebida que não tem pressa, feita por quem também não tem.