Estilo/Comportamento

Qual é o seu Wellness?

Premessa: Aqui escrevo sobre movimentos e tendências socioculturais em evolução que chegam via livro, mostras, feiras, numa curadoria sobre temas diversos, com a minha opinião de Trend Analyst que vive em Milão, nessa Europa ainda privilegiada para observar certas conversas e por isso è simplesmente o prazer de pensar em voz alta sobre o que está em mudança.

 

Devorei no último final de semana o livro da Fariha Róisín, Who Is Wellness For?, e confesso que fechei o livro algumas vezes só para respirar, mas não porque seja difícil, mas porque ela nomeia de forma muito clara algo que sinto há anos no corpo, mas nunca tinha articulado. Ele explora como a indústria do bem-estar progressista se apropriou e mercantilizou tradições globais de cura, transformando-as num produto de luxo construído sobre a sabedoria de povos negros, pardos e indígenas, ao mesmo tempo que os exclui e ignora.

E aqui chegamos ao ponto que nos interessa, que é o que discuto nas minhas mentorias e conversas com colegas designers e arquitetos: existe um problema de código cultural sério por trás da palavra wellness. Não é a mesma coisa em todo lugar, e fingir que é, bem, esta é a primeira mentira do sistema.


O Global Wellness Institute** define bem-estar como a busca ativa por atividades, escolhas e estilos de vida que conduzem a um estado de saúde holística. Que è o wellness que praticamos aqui na Itália (com Milão se candidatando a wellness capital city até 2030, projeto que acompanho de perto) com genealogia mediterrânea sendo social, coletivo, feito de praça, de mesa compartilhada, de caminhada sem propósito produtivo (a passeggiata) ou seja, é um bem-estar que acontece entre pessoas e que conta, sim, com a participação ativa e direta de uma política articulada para o "bem-estar social". Em resumo, vivemos aqui um estilo de vida voltado ao bem-estar comum onde a natureza encontra a cultura e geralmente as “coisas” que dão bem-estar não são produtos, e sim experiências…

Já o wellness praticado nas Américas (e em boa parte do mundo que copiou o modelo sem questionar) é, na essência, consumista e solitário, pois basta comprar um app, uma bebida com fibras e, se puder mesmo, um retiro de silêncio a mil dólares a noite. Oras, è um bem-estar como produto individual, como uma performance de autocuidado, e nunca uma vivência coletiva!

Fariha coloca o dedo exatamente nessa ferida: yoga sem devoção, aquela meditação sem ancoragem na comunidade (algumas culturas chamam de sangha), e as famosas práticas em busca de viagens astrais (ayahuasca, por exemplo) esvaziadas de contexto espiritual e revendidas a preços absurdos, enquanto quem originou essas sabedorias segue invisível.

Mas o mais comovente do livro não é a denúncia, e sim a resposta que ela mesma dá à sua pergunta: que a cura do wellness precisa ser coletiva, acessível e sim, disponível a todos. Como é, aqui em Milão, por exemplo. Como ela escreve: "bem-estar não é para ninguém se não for para todos; caso contrário, é um paradoxo". E é aí que Róisín acerta o ponto mais importante: talvez o que precisemos não seja de mais produtos de ou com wellness (essa palavra já contaminada, já mercadoria), mas de uma ética de justiça fundada em reciprocidade e aquele cuidado portanto não apenas com a minha barriguinha pós-parto, mas sim com o outro e o planeta.

Por isso insisto, no meu trabalho e no curso de Wellness Design que vou dar daqui a pouco na PUC-PR: o corpo mediterrâneo que descansa na praça não é o mesmo corpo que compra descanso num app e portanto, não estamos falando do mesmo wellness!

E a pergunta que fica é sempre a mesma: se o bem-estar serve só a quem pode pagar, já sabemos que não é wellness e sim, uma apropriação com preço de luxo, disfarçada de cura. Por isso, meu recado como especialista deste setor é: não caia nessa nova faceta do consumismo… ela só adoece.

**https://globalwellnessinstitute.org/what-is-wellness/


Fah Maioli

Designer e Trend Analyst

Fah Maioli

Fah Maioli é designer e trend analyst desde 1999. Atua na interseção entre comportamento cognitivo, cultura do consumo e antecipação de tendências. É autora do primeiro manual de Coolhunting em língua portuguesa, TEDx speaker e Guest Professor em Trend Analysis e Wellness Design na PUC-PR. Em 2008 fundou em Milão o Studio Fah Maioli, o único Observatório italiano dedicado ao Lifestyle, tendo construído ao longo de mais de duas décadas a Metodologia Metatrends, que atualmente aprofunda inserindo o tema de Consciousness and Science of Cognition, que aprofunda na Universidade de Pisa, em parceria com o Lama Tzong Khapa Institute, em preparação para seu doutoramento.