Estilo/Comportamento
A literatura e a moda
Ler virou moda. Miu Miu e Chanel criaram clubes de leitura. O livro entrou na fotografia. Mas o verdadeiro luxo ainda é ter tempo para lê-lo.
Eu descobri o amor pela leitura na adolescência. O que antes era obrigação virou lazer, entretenimento e, aos poucos, uma das formas que encontrei de estar no mundo. Desde então, sigo descobrindo livros e histórias. Nada muito organizado ou cartesiano. A vida muda e, com ela, a rotina. Filhos, trabalho, cidades, diferentes fases. Em alguns períodos, leio mais; em outros, menos. Mas nunca deixei de ler. Em 2023, resolvi criar um clube de leitura na minha própria marca de roupas, a WAS. Convidei uma escritora e influenciadora para desenvolver o projeto e mediar os encontros. O que aconteceu depois foi uma surpresa muito agradável.
Percebemos que havia uma grande quantidade de mulheres, entre seguidoras dela e clientes da WAS, que também queriam falar sobre livros. Havia uma demanda reprimida, uma vontade de encontro em torno de algo que não fosse simplesmente consumir.
De lá para cá, os clubes de leitura se multiplicaram. Marcas de moda como Miu Miu e Chanel criaram os seus. Celebridades passaram a indicar livros e organizar encontros. As redes sociais descobriram o prazer de mostrar o que estamos lendo. Livrarias voltaram a ocupar lugares de destaque nas cidades, nos shoppings e nos bairros. A literatura ganhou uma nova visibilidade e, com ela, uma nova aura. Isso é bom. Muito bom.
Ver os livros voltarem a circular, pessoas descobrindo autores, discutindo histórias e encontrando outras pessoas através da literatura é um movimento cultural potente. Há também um impacto econômico importante: um mercado que parecia ameaçado pela velocidade das telas encontrou novas formas de se aproximar dos leitores.
Eu criei o Clube de Leitura da WAS porque percebi uma conexão muito clara com as minhas clientes. Mulheres inteligentes, curiosas, interessadas em cultura e em referências que vão muito além da roupa. Mulheres que entravam na loja para conversar sobre uma coleção, mas também sobre um filme, uma exposição, um livro, uma viagem, uma ideia.
Elas não queriam apenas um produto. Queriam uma relação com a marca e com tudo aquilo que ela representava. É aí que moda e literatura se encontram.
As duas podem ser formas de expressão. Revelam repertório, identidade, desejos e pertencimento. E, por isso mesmo, também podem se transformar em linguagem de consumo. É aqui que começo a olhar com mais atenção para o atual boom da literatura.
Ler virou moda. E isso é maravilhoso, até certo ponto.
Junto com a valorização do livro, surgiu também uma espécie de estética intelectual. O livro cuidadosamente fotografado, a livraria bonita, o clube de leitura, a bolsa com um romance dentro, a lista de "livros que você precisa ler". A leitura passou a compor uma imagem, assim como uma roupa, uma viagem ou um restaurante. Aí está uma contradição interessante.
Quando a cultura vira tendência, ela ganha alcance. Mais pessoas se interessam, mais livros circulam, mais autores são descobertos. Mas a experiência também corre o risco de se transformar em mais uma camada de consumo. O livro para o clique. O livro para a legenda. O livro para a fotografia. O livro como objeto de decoração. O livro como prova de repertório. E não necessariamente o livro para ser lido.
A cultura sempre circulou também por influência, desejo, identificação e pertencimento. Quantas pessoas chegaram a um livro porque viram alguém falando sobre ele nas redes sociais? Quantas descobriram um autor porque queriam participar de uma conversa? Quantas começaram a ler porque encontraram naquele universo uma comunidade?
Não há nada de errado nisso. O problema começa quando a experiência termina na imagem. Ler de verdade pede outra coisa. Pede tempo. Atenção. Silêncio. Pede que o livro saia da fotografia e entre na vida.
Em um mundo em que tudo é rápido, editado, compartilhado e imediatamente substituído por outra coisa, sentar diante de um livro e permanecer ali por algumas horas é quase um ato de resistência.
A literatura pode estar na moda. Que bom.
Mas o verdadeiro luxo não está em ter o livro certo na fotografia.
Está em ter tempo para lê-lo.



















