Estilo/Comportamento
Brasília brinda a própria história: como o Cerrado se tornou terra de grandes vinhos
Syrah, Assyrtiko, Pinot Noir e uma taça depois da outra: como a capital deixou de ser aposta e virou referência.
Durante muito tempo, falar em vinho brasileiro era pensar quase exclusivamente na Serra Gaúcha. Hoje, porém, Brasília também ocupa um lugar de destaque nesse cenário. O que parecia improvável há algumas décadas transformou em uma das histórias mais interessantes da vitivinicultura nacional, resultado da combinação entre pesquisa, tecnologia, ousadia e um terroir que revelou enorme potencial para a produção de vinhos finos.
Na última década, o Distrito Federal deixou de ser apenas uma aposta para se consolidar como uma das regiões vitivinícolas mais promissoras do país. Mas essa história começou muito antes.

O primeiro capítulo foi escrito em 1996, quando o médico ortopedista Odelmo de Gregorio, hoje com 85 anos, plantou no Vinhedo Lacustre, no Lago Norte, o primeiro pé de uva vinífera registrado no Distrito Federal: uma muda de Merlot em pé franco, sem porta-enxerto. O local, que atualmente funciona como uma das poucas vinícolas urbanas do Brasil, tornou-se um marco para a vitivinicultura brasiliense.
Na época, o projeto ainda era experimental. Somente anos depois, com o desenvolvimento da técnica da dupla poda, Odelmo decidiu retomar o sonho e, em 2010, ampliou o vinhedo com o plantio das demais videiras e criou uma adega com loja para visitação, além de um bistrô.
A técnica da dupla poda foi justamente a grande responsável por mudar a história do vinho no Cerrado. Ao transferir a colheita para o inverno, período de seca na região, as videiras passaram a amadurecer em condições praticamente ideais: dias ensolarados, noites mais frescas e baixa umidade, fatores que favorecem a concentração de aromas, sabores e estrutura dos vinhos.
Impulsionados por esses resultados, outros produtores e pesquisadores passaram a investir no cultivo de uvas viníferas. Em 2018, nomes como Ronaldo Triacca e Rodrigo Sucena iniciaram seus projetos na região do PAD-DF, ajudando a consolidar um movimento que cresceria rapidamente nos anos seguintes.
O avanço foi acelerado. Novos vinhedos surgiram, vinícolas começaram a ser inauguradas e os rótulos produzidos no Distrito Federal passaram a conquistar espaço em concursos nacionais e internacionais. As premiações chamaram a atenção para a qualidade dos vinhos do Cerrado, reconhecidos pela elegância, equilíbrio e identidade própria.
Um dos principais marcos dessa trajetória foi a inauguração da Vinícola Brasília, em 2024. Resultado da união de dez famílias produtoras, o empreendimento transformou um sonho coletivo em um dos maiores símbolos da vitivinicultura do Centro-Oeste. Em pouco tempo, os vinhos da marca conquistaram medalhas em importantes concursos, incluindo premiações na França, ajudando a colocar Brasília definitivamente no mapa mundial do vinho.

Mas o sucesso da região vai muito além de uma única vinícola, e também de uma única variedade de uva. Embora a Syrah tenha sido a grande responsável por projetar Brasília nacionalmente, o Distrito Federal hoje cultiva diversas castas com excelentes resultados, como Cabernet Franc, Tempranillo, Sauvignon Blanc, Malbec e Marselan.
A diversidade continua crescendo. A Ercoara aposta na Viognier; a Casa Vitor vem desenvolvendo um trabalho cuidadoso com a Pinot Noir; e a Villa Triacca investe na Assyrtiko, tradicional variedade grega que encontrou no Cerrado um novo território para mostrar seu potencial.
Mais do que ampliar a produção, Brasília vive agora um momento de consolidação. O enoturismo ganha força, atraindo visitantes interessados em conhecer os vinhedos, degustar rótulos locais e descobrir que, no coração do Brasil, nasceu uma nova fronteira do vinho nacional.
A história ainda está sendo escrita, mas uma certeza já existe: o Cerrado provou que também é terra de grandes vinhos. E Brasília mostra, taça após taça, que tradição não depende apenas do tempo, ela também pode ser construída.



















