Estilo/Comportamento
Networking não é sobre conhecer pessoas. É sobre criar relações
Por que relacionamento genuíno vale mais do que qualquer contato
Eu trabalho com comunicação há muitos anos e, se tem uma coisa que aprendi nesse tempo, é que relacionamento é um dos ativos mais importantes que a gente pode construir. Na vida e no trabalho.
Mas acho que existe algo anterior a qualquer técnica de *networking*: é preciso gostar de gente. E eu sempre gostei.
Desde criança, eu tinha curiosidade pelo outro, vontade de trocar, conhecer novas histórias, estar no meio das coisas. Gostava de ser líder na escola, de participar, de me envolver. Mais tarde, comecei a viajar sozinha para eventos de comunicação simplesmente porque queria ampliar meu universo, aprender, circular. Nunca tive muito medo de sair da minha zona de conforto.
Talvez a maior prova disso tenha sido ter saído de uma cidade de cerca de 50 mil habitantes, no interior do Rio Grande do Sul, e construído minha vida e minha carreira longe dali. Hoje tenho uma empresa no Rio de Janeiro e em São Paulo e atuo com clientes do mundo inteiro. Quando olho para essa trajetória, percebo o quanto as relações que construí fizeram parte de cada etapa dela.
Não porque eu tenha me aproximado de alguém pensando no que poderia receber em troca. Pelo contrário. Sempre foi muito mais simples: eu genuinamente gosto desse contato. Gosto de conversar, de ouvir histórias, de descobrir universos diferentes, de conectar quem acho que deveria se conhecer. E, para mim, esse é um ponto de partida fundamental quando falamos de relacionamento.
Talvez por isso eu tenha um pouco de preguiça da própria palavra *networking*. Ela ganhou uma conotação meio calculada, quase como se fosse uma técnica: frequentar determinados lugares, encontrar os contatos certos, trocar cartões, adicionar no LinkedIn e esperar que, em algum momento, aquilo se transforme em uma oportunidade.
Para mim, nunca funcionou assim.
Construir uma boa rede tem muito mais a ver com relações genuínas. Com curiosidade pelo outro. Com estar presente. Com lembrar, ouvir, aproximar, fazer uma apresentação mesmo quando você não vai ganhar absolutamente nada com isso.
E talvez esse seja justamente o segredo.
Ao longo da minha carreira, fiz muitas conexões. Em reuniões, eventos, viagens, festas, almoços, trabalhos e encontros completamente despretensiosos. Algumas viraram clientes. Alguns clientes viraram amigos. Contatos de dez ou quinze anos atrás reapareceram na minha vida profissional muito tempo depois. E oportunidades surgiram de lugares que eu jamais teria conseguido planejar.
Porque relacionamento não se constrói quando você precisa dele.
Essa, para mim, é a grande diferença entre criar vínculos e simplesmente colecionar contatos. Se você só procura alguém quando precisa de uma indicação, de uma reunião, de uma apresentação ou de um favor, provavelmente não construiu uma relação. Construiu uma agenda.
E relações precisam de manutenção. Não estou falando de mandar mensagem toda semana ou transformar a vida numa eterna obrigação social. Às vezes é um almoço. Um café. Uma mensagem porque você viu alguma coisa e lembrou de alguém. Uma indicação de trabalho. Um convite. Ou aproximar dois contatos que têm tudo a ver e talvez nunca se encontrassem sem aquela ponte.
São pequenos gestos que, ao longo dos anos, criam confiança.
No meu trabalho isso fica ainda mais evidente. PR é, essencialmente, relacionamento. Posso ter uma ótima estratégia, uma excelente história e um cliente incrível, mas boa parte do que faço depende da credibilidade que construí com jornalistas, empresários, executivos, *creators* e profissionais de diferentes mercados ao longo dos anos. E credibilidade não se compra nem se constrói da noite para o dia.
Por isso também acho importante circular.
Sempre gostei de conversar, ir a lugares diferentes, viajar, participar de eventos e estar aberta ao que acontece fora da agenda planejada. Não porque cada jantar precise virar negócio. Muito pelo contrário. Acho insuportável entrar em um ambiente olhando ao redor e enxergando potenciais contatos profissionais.
Mas quanto mais você circula, mais amplia seu repertório, conhece outros universos e se coloca diante de experiências que talvez nunca estivessem no seu caminho. E isso tem um valor enorme.
Também existe outra distorção que sempre me incomodou: achar que uma boa rede significa conhecer "gente importante". Você nunca sabe onde alguém estará daqui a cinco ou dez anos. E, mais importante, ninguém deveria ser interessante apenas pelo cargo que ocupa naquele momento.
No fim, as melhores conexões são construídas de forma muito mais orgânica. Você conhece alguém, gosta, troca, ajuda, é ajudado, apresenta, é apresentado. O tempo passa e aquele vínculo continua existindo.
Claro que isso abre portas. Gera negócios. Traz oportunidades. Resolve problemas. Uma boa rede de relacionamentos pode encurtar caminhos que levariam meses ou anos para serem percorridos.
Mas acho que existe uma inversão importante aí: as oportunidades são consequência do relacionamento, não deveriam ser a razão dele.
Talvez seja por isso que, depois de tantos anos trabalhando com comunicação, minha principal dica sobre *networking* seja justamente não pensar tanto em *networking*.
Tenha curiosidade pelo outro. Seja generoso com as suas conexões. Faça pontes. Esteja presente. Cuide dos vínculos que fazem sentido para você. Circule por ambientes diferentes. Saia da sua zona de conforto. E, principalmente, não apareça apenas quando precisar.
Porque cargos mudam, empresas mudam, mercados mudam e a vida dá muitas voltas.
As relações ficam.



















