Estilo/Decoração
Quando foi que morar virou copiar?
Entre o bege, o clean e o quiet luxury, muitas casas ficaram impecáveis e deixaram de revelar quem mora nelas.
Tenho a impressão de que muitos profissionais estão projetando a mesma casa para pessoas completamente diferentes.
O mesmo sofá, a mesma pedra, a mesma madeira, o mesmo quadro que não diz nada a ninguém. Tudo dentro de uma paleta cuidadosamente controlada para que nenhum elemento ouse se destacar. Mudam o endereço e os moradores. O cenário permanece, fixado na mesmice.
Essa tendência já tem um nome circulando por aí: “begeficação” dos espaços. O termo traduz bem essa paisagem de interiores cada vez mais parecidos, em que a neutralidade parece ter se tornado uma regra.
E o bege, coitado, nem é o principal culpado.
O que me incomoda é a padronização do olhar. Essa ideia de que, para uma casa ser elegante, ela precisa seguir uma receita. Como se a sofisticação exigisse apagar as particularidades de quem vive ali.
Em que momento personalidade passou a ser tratada como excesso?
Na minha leitura, chegamos aqui por uma combinação de repetição, medo e desejo de aprovação. As referências circulam, os mesmos ambientes aparecem nas telas, e aquilo que é visto muitas vezes começa a parecer a única escolha possível. O familiar ganha o nome de bom gosto. O diferente precisa se justificar.
O minimalismo, o estilo clean, o chamado quiet luxury: qualquer linguagem pode produzir projetos belíssimos. Mas, quando vira fórmula, perde profundidade. Uma escolha consciente se transforma numa lista de compras.
E há uma responsabilidade profissional nessa repetição. Quando um arquiteto leva a mesma solução para todos os clientes, quanto está realmente escutando? Quanto daquele projeto nasce da vida de uma família e quanto já chegou pronto na cabeça de quem o assina?
É desconfortável perguntar. É necessário. Porque há casas impecáveis nas quais eu procuro os moradores e não os encontro.
Onde estão as viagens? A origem? O objeto herdado que ninguém mais tem? O livro realmente lido? A arte que provoca alguma coisa? A escolha que talvez não agrade a todas as visitas, mas faz sentido para quem abre aquela porta todos os dias? O quarto da bagunça, a cadeira que não é assinada pelo designer da vez, mas que é super confortável e você não vive sem?
Uma casa pode ser toda bege e ter uma identidade extraordinária. Pode também ser cheia de cores e continuar sendo uma cópia. A questão é o que orienta as escolhas. Quem está construindo uma casa precisa se perguntar: estou escolhendo porque gosto ou porque aprendi que isso será aprovado?
Para sair desse marasmo, é preciso voltar a fazer perguntas antes de reunir referências. Como você vive? O que quer preservar? O que acha bonito, mesmo quando ninguém concorda? Que lembranças merecem espaço? O que precisa funcionar nessa casa para que a sua vida aconteça bem?
Depois, é preciso permitir que as respostas apareçam no projeto. Dar lugar ao artesanato, à memória, aos materiais que envelhecem, às misturas que fazem sentido. Resistir à vontade de substituir tudo só para que tudo combine.
Isso exige repertório e trabalho. Copiar uma composição pronta costuma ser mais fácil do que construir uma linguagem a partir de uma pessoa.
Eu gosto de casas que revelam alguma coisa. Que têm escolhas, vínculos, nuances. Casas onde a beleza cresce à medida que conhecemos quem mora ali. É essa identidade que procuro traduzir em cada projeto.
Há referências demais disponíveis para que tantos espaços continuem dizendo exatamente a mesma coisa.
Se a sua casa pudesse pertencer a qualquer pessoa, onde está você dentro dela?



















