Estilo/Moda

O novo luxo é pensar por conta própria?

A inteligência artificial facilita escolhas, mas o estilo pessoal continua dependendo de observar, discordar e decidir sozinho.

Será que a inteligência artificial está nos deixando mais burros? A pergunta pode soar exagerada, mas acredito que seja pertinente. Adoro a facilidade com que a IA resolve problemas e abre possibilidades, mas me pergunto se, com tantas respostas prontas, não estamos perdendo um pouco do ímpeto de pesquisar, questionar e, principalmente, nos aprofundar.

E sim, isso tem tudo a ver com moda e luxo. Os algoritmos já influenciam o que vestimos, compramos e até o que muitos de nós consideramos belo. Nunca tivemos acesso a tantas referências e, ironicamente, nunca foi tão fácil acabar todo mundo parecido. Uma tendência surge, ganha nome e vira um "core". De repente, parece que precisamos todos desejar as mesmas coisas.

Até a leitura entrou nessa lógica. O poetcore, incorporado por marcas como a Miu Miu, que talvez tenha levado os livros ao universo da moda justamente como uma crítica ao imediatismo e à superficialidade das informações, acabou resumido a mais um "core", uma estética a ser reproduzida. Construir repertório, formar opiniões e ter algo próprio a dizer parecem ter ficado em segundo plano, enquanto o visual segue protagonista. E não que ele não deva ser, mas será que não poderia vir acompanhado de um pouco mais de conteúdo e pensamento próprio?

No luxo, enquanto a tecnologia permite reproduzir imagens em segundos, cresce o fascínio pelo que leva tempo. O couture sempre soube disso: uma peça única, centenas de horas de trabalhos manuais, técnicas passadas entre gerações. O valor não está apenas no resultado, mas na história e nas mãos por trás dele.

Essa discussão chegou ao marketing de luxo no início deste ano, quando Gucci e Valentino divulgaram campanhas com imagens geradas por IA e foram duramente criticadas, mesmo identificando o uso da tecnologia. Não que a tecnologia não tenha espaço nesse universo, mas o luxo sempre teve como um de seus grandes valores justamente a exaltação da criatividade humana. E não parece um tanto contraditório substituí-la na própria comunicação?

A Loewe (e tantas outras maisons de luxo) segue o caminho oposto: para celebrar seus 180 anos, apresentou uma animação feita com ilustrações criadas à mão, com traços irregulares e pequenas imperfeições. Justamente aquilo que tantas vezes tentamos corrigir pode ser o que dá alma a uma criação.

Não quero romantizar a dificuldade nem defender que tudo precise ser feito à mão. Acho a inteligência artificial uma ótima ferramenta para facilitar vários aspectos do dia a dia. O problema é quando terceirizamos, junto com as tarefas, a nossa capacidade de pensar. Até porque estilo pessoal também nasce disso: observar, experimentar, discordar e escolher o que faz sentido, mesmo quando o algoritmo sugere outra coisa.

Esse novo luxo vai pelo caminho não apenas de possuir algo que poucos possuem, mas de cultivar algo que ninguém pode comprar pronto: um olhar próprio. Em um mundo de perfeição instantânea, a beleza pode estar justamente nas pequenas imperfeições que nos tornam humanos.

Além das correções combinadas, fiz dois ajustes pequenos. No penúltimo parágrafo, separei em duas frases o trecho que terminava em "feito à mão", porque a vírgula unia duas orações independentes. No último, acrescentei "de" antes de "cultivar", para manter o paralelismo com "de possuir". O "core" entre aspas ficou como estava, por ser um termo destacado e não uma fala.


Bárbara Russowsky

Bárbara Russowsky

Bárbara Russowsky construiu sua trajetória entre moda, criatividade e comunicação. Com formação em Design Visual e especialização em Marketing de Moda e Luxo, esteve por 13 anos à frente da MuyGuappa, marca que fundou e onde desenvolveu sua experiência no universo da moda e do empreendedorismo.

Hoje, atua na criação de conteúdo, curadoria e desenvolvimento de projetos especiais para marcas de moda, beleza e lifestyle. Seu trabalho reflete o interesse pela estética, pelo comportamento e pelas diferentes formas de expressão da moda, sempre com espaço para uma perspectiva pessoal sobre estilo e consumo.