Estilo/Comportamento
O luxo de não estar disponível o tempo todo
Entre mensagens, compromissos e convites, poder escolher onde colocar a nossa atenção virou um privilégio.
Tem uma pergunta que fazemos quase automaticamente quando encontramos alguém: “Como você está?”. E uma resposta que parece ter se tornado obrigatória: “Na correria”.
Eu também respondo assim. À frente de uma empresa de comunicação, convivo com agendas que mudam, demandas que chegam sem aviso e situações que precisam de uma decisão rápida. Gosto desse movimento. Mas tenho pensado no quanto passamos a usar a falta de tempo como um cartão de visitas. Estar ocupada demonstra que somos necessárias, requisitadas, bem-sucedidas. Dizer que temos uma tarde livre chega a provocar a vontade de explicar por quê.
A disponibilidade virou parte dessa equação. Respondemos mensagens entre reuniões, durante o almoço, no carro, no sofá. Às vezes, ninguém exigiu uma resposta imediata. Nós mesmas criamos essa expectativa e depois tentamos acompanhá-la.
Quem trabalha com relações sabe o valor de estar presente. Uma conversa pode abrir uma porta, um encontro pode aproximar pessoas, um convite pode trazer uma oportunidade inesperada. Há prazer nisso também. O problema começa quando aceitamos tudo e chegamos aos lugares com a cabeça no compromisso seguinte.
Podemos estar em um ótimo restaurante e mal perceber o sabor da comida. Viajar para um destino que desejamos conhecer e passar boa parte do dia resolvendo assuntos pelo celular. Sentar com alguém de quem gostamos e interromper a conversa várias vezes para responder a pessoas que poderiam esperar.
Isso me faz pensar em como falamos de luxo. Escolhemos o hotel, a mesa, o serviço, a experiência. Cuidamos de cada detalhe, mas muitas vezes deixamos de reservar a atenção necessária para aproveitar o que escolhemos. Um almoço sem pressa pode parecer uma extravagância maior do que o próprio restaurante.
Claro que há responsabilidades que não podem esperar. Clientes, equipes e famílias precisam de nós. Nem todas as pessoas têm a mesma autonomia sobre o próprio tempo. Ainda assim, dentro da margem que cada uma tem, vale observar o que é urgente e o que apenas ganhou esse status porque chegou com uma notificação.
Tenho pensado nisso como um exercício de escolha. Aceitar um convite porque quero estar ali. Conseguir ouvir uma história até o fim. Deixar um intervalo entre dois compromissos. Poder descansar sem transformar o descanso em mais uma tarefa a cumprir direito. Isso também exige aprender a dizer que agora não dá, sem levar tanta culpa junto.
Para quem empreende, essa conversa é especialmente difícil. A empresa carrega tanto de nós que parece impossível baixar a guarda. Há sempre algo a resolver, melhorar, acompanhar. Mas também há uma vida acontecendo enquanto fazemos tudo isso.
Ainda gosto de uma agenda movimentada. Só quero poder olhar para ela e reconhecer as minhas escolhas. E, quando alguém perguntar como estou, ter outras coisas para contar além da correria.



















