Estilo/Comportamento

O peso de saber tudo e não poder mudar nada

Escolher quando deixar o mundo entrar

Antes de terminar o café da manhã, já sei o que aconteceu numa guerra a milhares de quilômetros e qual cidade foi atingida por uma enchente aqui na Itália. Nunca tive tanta informação (ruim) acumulada, tanta capacidade de saber e, na mesma medida, nunca me senti tão deprimida e impotente.Você se identifica?

Percebi estes tempos que meu problema já não é a falta de informação e sim o excesso de consciência diante de uma capacidade de ação muito pequena e por isso ao mesmo tempo que penso como estou bem informada, logo vem a sensação de impotência por não fazer nada. È angustiante.

Descobri que isso tem a ver com uma palavra interessante: agència. Vou usar muito este termo, então vale explicar: ela é a capacidade de agir sobre o mundo e ver o resultado da própria ação, ou seja, sentir que o que eu faço muda alguma coisa, mesmo que pequena.

Mas vamos à origem deste desconforto. Por que sabemos tanto?

Descobri que isso não é acidente lendo Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School, socióloga e psicóloga social, ainda pouco conhecida aqui na Itália. Ela criou anos atrás o conceito de capitalismo de vigilância: um modelo econômico em que a nossa experiência (o que clicamos, o que curtimos, etc) vira dado. Que serve para prever e influenciar o nosso comportamento.

Em seu livro A Era do Capitalismo de Vigilância (Intrínseca, 2020) ela explica que as plataformas são desenhadas para capturar atenção e nos manter conectados e quem produz a informação tem muito mais poder sobre ela do que quem a recebe. O resultado? Um fluxo sem fim que chega rápido, em alta definição, quase sempre antes de termos tempo de compreender.

Aqui entra a minha pesquisa atual em cognição incorporada, ou a ideia de que pensamos e sentimos com o corpo inteiro, não só com a cabeça. Tecnicamente essa ciência cognitiva nos demonstra que emoção, atenção e compreensão passam pelo corpo.

E por isso, um corpo exposto a notícias de ameaça reage como um corpo em alerta, aqui o coração acelera, a atenção se estreita, fica difícil relaxar e estar presente. Isso explica a sensação que eu tenho de perigo constante. Não estou dizendo que ver uma guerra no celular seja trauma no sentido clínico, uma ferida psíquica diagnosticável, mas sim que é uma analogia. Como entro em empatia, eu sofro tanto quanto.

A ciência confirma que o corpo não distingue bem entre ameaça vivida e ameaça assistida, e responde às duas com prontidão, e aqui nossa época cria um paradoxo, porque nós percebemos o mundo inteiro, mas só conseguimos agir em um pedaço minúsculo dele!!! O ciclo fica aberto: o corpo se prepara para responder e a resposta não vem, a tensão fica sem destino e a gente (eu, ao menos) sofre pra caramba.

A pergunta que fica

Se o corpo foi feito para agir sobre o que percebe, o que acontece quando a consciência cresce muito além da agência? Ainda não tenho uma resposta fechada, mas acredito que ela começa por um gesto simples: devolver ao corpo alguma possibilidade de resposta.

Por isso tenho tentado, no meu pequeno mundo, começar por ações pequenas e concretas. Entrei no Comitato dos pais da escola, me inscrevi para ser mesária nas eleições, consumo apenas alimentos biológicos, sou voluntária na biblioteca da cidade e ajudo a limpar o parque quando pedem uma mão. Nada disso muda o mundo, eu sei. Mas muda o que faço com o que sei dele: a consciência deixa de ser só um peso que carrego e vira algo que posso fazer.

Outra mudança, talvez a mais importante, foi também a mais simples: parei de ver telejornais na TV e configurei um limite de uma hora por dia no Instagram. Confesso que tem me feito muito bem. Não é fechar os olhos para o mundo e sim escolher quando e quanto deixo o mundo entrar, para que o corpo tenha tempo de respirar entre uma notícia e outra.

Saber tudo talvez seja inevitável mas ficar paralisada por isso não, porque afinal, o mundo segue em frente, e a gente também precisa seguir, tentando ser feliz nele de alguma forma.

E você, o que vai fazer para dar agència à sua consciência ? Me conta!


Fah Maioli

Designer e Trend Analyst

Fah Maioli

Fah Maioli é designer e trend analyst desde 1999. Atua na interseção entre comportamento cognitivo, cultura do consumo e antecipação de tendências. É autora do primeiro manual de Coolhunting em língua portuguesa, TEDx speaker e Guest Professor em Trend Analysis e Wellness Design na PUC-PR. Em 2008 fundou em Milão o Studio Fah Maioli, o único Observatório italiano dedicado ao Lifestyle, tendo construído ao longo de mais de duas décadas a Metodologia Metatrends, que atualmente aprofunda inserindo o tema de Consciousness and Science of Cognition, que aprofunda na Universidade de Pisa, em parceria com o Lama Tzong Khapa Institute, em preparação para seu doutoramento.