Estilo/Arte
O Brasil que encontrei em Veneza
Da Bienal de Veneza, um olhar sobre o que o Brasil leva ao mundo — e o que o mundo devolve a quem vai encontrá-lo.

Na minha recente passagem pela Bienal de Veneza, chamou-me a atenção a presença de tantos visitantes brasileiros. Entre as muitas nacionalidades que ali se cruzam, essa presença tornou-se especialmente evidente. E me fez pensar no que significa viajar para encontrar arte — incluindo a do próprio país.
Setembro oferece um contexto particular para essa descoberta. A retomada cultural europeia coincide, em Veneza, com o Festival de Cinema. Enquanto o Lido recebe diretores, atores e o público das grandes estreias, a Bienal de Arte continua a ocupar os Giardini, o Arsenale e outros espaços da cidade. São percursos distintos, mas a proximidade dá a Veneza uma intensidade difícil de encontrar em outro lugar.
Foi nessa época que o LAO escolheu visitar a Bienal. Para quem acompanha artistas e coleções, essas viagens permitem confrontar referências, conhecer propostas e perceber como uma obra se afirma num contexto internacional. O olhar precisa desse exercício: sair do que já conhece e aceitar ser surpreendido.

No Pavilhão do Brasil, essa atenção encontra duas artistas fundamentais: Rosana Paulino e Adriana Varejão. Com curadoria de Diane Lima, a exposição *Comigo ninguém pode* reúne obras históricas e novas produções num diálogo sobre as heranças coloniais, a natureza e a espiritualidade.
O título vem da planta tão presente à entrada de casas brasileiras, associada à proteção, mas também conhecida pela sua toxicidade. Essa ambivalência atravessa a proposta: proteger, resistir, transformar. A história surge como matéria que pode ser interrogada e reescrita.
Reunir essas duas artistas permite aproximar percursos distintos sem apagar suas diferenças. A representação de um país ganha espessura quando dá espaço à complexidade das suas histórias. Para quem chega do Brasil, há aqui a possibilidade de reconhecer referências familiares e vê-las adquirir outra dimensão. Para os demais visitantes, abre-se uma entrada exigente num universo que merece ser conhecido além das imagens habituais.
A presença brasileira que observei me interessa também por isso. Não disponho de números que a quantifiquem; guardo uma impressão de viagem. Mas encontrar tantos brasileiros num evento dessa relevância me leva a pensar na arte como motivo para escolher um destino e dedicar-lhe tempo.
Uma Bienal exige escolhas. Não conseguimos ver tudo com a mesma atenção, e a quantidade de propostas pode facilmente se sobrepor à experiência. Vale a pena chegar informado, mas guardar margem para mudar o percurso, voltar a uma obra ou permanecer mais tempo num pavilhão.
A 61ª Bienal de Arte segue até 22 de novembro. Há ainda tempo para fazer de Veneza uma viagem com perguntas próprias. Trouxe uma comigo: o que descobrimos sobre a nossa cultura quando a encontramos longe de casa?



















