Estilo/Comportamento

Que sociedade queremos?

O caso John Galliano e a exposição cancelada no Met reacendem uma das perguntas mais difíceis do nosso tempo.

Preciso ser honesta sobre o que penso, mesmo sabendo que é uma posição que divide opiniões.

O que John Galliano fez em 2011 foi grave. Sério demais para minimizar. Em um bar de Paris, bêbado e destruído pela dependência química, ele disse que amava Hitler. Disse que as mães e avós das pessoas ao seu redor teriam sido gasadas. Foi condenado por um tribunal francês. Foi demitido da Christian Dior, a casa que havia transformado numa das maiores marcas de luxo do mundo. Sua reputação, construída ao longo de décadas de gênio criativo, desmoronou em questão de horas.

Mas a história não parou ali. E é nesse ponto que a conversa fica mais complexa, e mais necessária.

Galliano entrou em tratamento para dependência química e alcoolismo. Pediu desculpas publicamente, descrevendo suas palavras como horríveis e inaceitáveis. Encontrou-se pessoalmente com líderes religiosos e representantes da comunidade judaica. Em 2013, a Anti-Defamation League, uma das principais organizações de combate ao antissemitismo do mundo, declarou que ele havia demonstrado arrependimento genuíno e que as pessoas podiam mudar quando assumiam a responsabilidade pelo que haviam feito.

Quando o Met anunciou uma grande exposição solo sobre seu trabalho, o museu realizou reuniões com rabinos e líderes judeus antes mesmo de tornar o projeto público. O rabino Rick Jacobs, presidente da Union for Reform Judaism, se encontrou pessoalmente com Galliano e usou uma palavra específica para descrever o que sentiu: sinceridade. Jonathan Greenblatt, CEO da ADL, disse ao New York Times que a liga aceitou o pedido de desculpas de Galliano há muito tempo e que seus esforços para reparar o dano causado por suas palavras merecem reconhecimento.

E ainda assim, diante da pressão de doadores, críticos e de um vereador de Nova York, a exposição foi cancelada. Galliano mesmo anunciou sua saída, com o que descreveu como grande tristeza. Anna Wintour disse apoiar a decisão.

Fico com essa cena na cabeça. Um homem que errou gravemente, que passou quinze anos sóbrio, que trabalhou com a comunidade que havia ofendido, que foi aceito por ela, sendo afastado não pela vítima mas pela pressão difusa de quem não participou do processo de reparação.

Não estou dizendo que o erro foi pequeno. Estou perguntando: o que fazemos com as pessoas depois que elas erram? Se a redenção não é possível, se quinze anos de trabalho, sobriedade e reconhecimento não contam nada, então para que serve o perdão? Para que serve a reabilitação?

A sociedade que cancela para sempre é uma sociedade que não acredita na mudança humana. E eu, particularmente, acredito.

A exposição do Met, segundo Anna Wintour, foi adiada, não cancelada. A porta não está completamente fechada. E talvez seja essa a resposta mais honesta que o mundo da moda conseguiu dar por enquanto: ainda não sabemos o que fazer com Galliano. Mas também não estamos prontos para dizer que nunca.

Eu acredito que ele merece a exposição. E você?


Simone Pontes

Editora

Simone Pontes

Simone Pontes é socióloga e jornalista, editora, designer de joias e fundadora da TAB Marketing Editorial, agência nacional de projetos editoriais com atuação em todo o Brasil. Com mais de duas décadas de experiência no segmento editorial, lidera a produção de livros institucionais, projetos comemorativos, publicações corporativas e iniciativas de patrocínio cultural para empresas e organizações de diferentes setores.

O Pluminews é o seu projeto mais recente — e mais pessoal. Renovado em 2026, o portal de lifestyle reúne curadoria editorial própria e um time de colunistas especializados nas editorias de viagem, gastronomia e estilo. Uma publicação feita para quem entende que experiência e repertório não são o mesmo que consumo.

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