Gastronomia/Receitas
Aprenda a fazer o tiradito, um prato que une três países
Camarão em lâmina translúcida, leite de tigre de três cítricos, prosciutto di Parma e a lógica perfeita de uma fusão deliciosa

A cozinha nikkei não nasceu em restaurantes de luxo. Nasceu em casas, em fondas modestas, na necessidade cotidiana de cozinhar com o que havia. Quando imigrantes japoneses chegaram ao Peru no final do século XIX, trouxeram o respeito pelo peixe cru e a precisão da faca. O que encontraram foi o limão peruano, o ají amarillo e um oceano Pacífico generoso. O usuzukuri japonês, o corte de peixe em lâminas finíssimas, encontrou o molho do ceviche peruano. O tiradito nasceu desse encontro sem que ninguém soubesse dizer exatamente onde terminava um e começava o outro.
A diferença fundamental entre tiradito e ceviche está no corte e no tempo. No ceviche, o peixe vai em cubos e macera no ácido. No tiradito, vai em lâminas finas e recebe o molho apenas no momento de servir, preservando a textura delicada e permitindo que a acidez inicie uma cocção leve sem cozinhar. Uma diferença que parece pequena e muda tudo na boca.
O Tiradito Mediterrâneo aplica essa técnica ao camarão rosa fresco, não ao peixe habitual — já uma primeira transgressão criativa. O camarão é aberto e delicadamente batido até atingir a espessura de uma lâmina translúcida. Recebe sal, pimenta-do-reino moída e gotas de limão-caipira e limão-taiti. A acidez inicia a cocção sem cozinhar. O prato permanece cru.
A partir daí, entram as três geografias que dão nome ao prato. O aguachile mexicano, preparo tradicional de camarão cru banhado em cítricos, inspira a base ácida. A técnica peruana do tiradito organiza o corte e o tempo. O Mediterrâneo chega com o prosciutto di Parma, cujas fatias finas respondem à acidez com salinidade e gordura.
O leite de tigre é feito com limão-caipira, limão-taiti e toranja, complementado por manjericão e salsão. O salsão retorna na finalização em lâminas finas — mergulhado em água com gelo antes de servir para garantir crocância. O milho baby inteiro em conserva completa o contraste de texturas.
Um detalhe técnico importante: o tiradito nunca pré-marina o ingrediente principal. A acidez chega no último momento, o que explica por que o prato precisa ser consumido imediatamente após a montagem. Cada minuto a mais na mesa muda a textura e a percepção do frescor.
O resultado é um prato que não pertence a nenhum país específico e pertence aos três ao mesmo tempo. México, Peru e Itália numa única lâmina de camarão. Sem fronteiras. Sem força. Com técnica.
Receita do Tiradito Mediterrâneo
Ingredientes
Camarão rosa fresco
Limão-caipira
Limão-taiti
Toranja (grapefruit)
Salsão
Manjericão
Milho baby inteiro em conserva
Prosciutto di Parma
Sal
Pimenta-do-reino moída
Modo de preparo
Abra o camarão rosa e bata delicadamente até obter uma lâmina bem fina. Disponha no prato e tempere com sal, pimenta-do-reino moída e gotas de limão-caipira e limão-taiti.
Para o leite de tigre cítrico, misture os sucos de limão-caipira, limão-taiti e toranja, e acrescente manjericão e salsão. Uma referência do chef é utilizar cerca de 50 ml do molho por porção.
Corte o salsão em lâminas bem finas e deixe-o em água com gelo para preservar a crocância.
Finalize o camarão com o leite de tigre cítrico, o salsão crocante, o milho baby inteiro e as fatias de prosciutto di Parma.
Dica do chef: o frescor do camarão é fundamental para o resultado do prato. Para o salsão, o corte fino e o choque em água com gelo ajudam a manter a textura crocante.
Receita do chef eruano Carlos Alata do Nuu Nikkei (Curitiba)








