Estilo/Comportamento

Já não basta ver arte, queremos estar perto dela

Uma nova forma de comprar arte está ganhando espaço nesse mercado

Há qualquer coisa de particular em entrar num ateliê. Antes da galeria, da feira, da fotografia perfeita e da legenda, há matéria, tentativa, processo. Há uma obra ainda próxima de quem a fez.

Penso nisso em Lisboa, depois de uma visita ao ateliê de Vhils. Num tempo em que podemos conhecer o trabalho de um artista, acompanhar uma exposição em São Paulo ou Nova York e até comprar uma obra sem sair da tela, seria lógico que a distância tivesse deixado de importar. Está acontecendo precisamente o contrário.

Os dados começam a confirmá-lo. Segundo o Art Basel & UBS Survey of Global Collecting, as visitas a ateliês foram uma das experiências presenciais que mais cresceram entre colecionadores. 63% dos colecionadores de elevado patrimônio entrevistados compraram diretamente de artistas, e as vendas diretas chegaram a representar 20% do valor gasto em arte.

Não é uma rejeição do digital. É talvez uma consequência dele.

O digital democratizou a descoberta. Deu-nos acesso instantâneo a artistas, galerias, museus e feiras de qualquer geografia. Mas, quando ver deixou de ser raro, estar perto ganhou outro valor.

Conhecer o lugar onde uma obra nasce. Perceber a matéria antes de ela se tornar objeto acabado. Ouvir o artista falar sem que a conversa tenha sido reduzida a conteúdo. Encontrar uma obra que ainda não circulou milhares de vezes num *feed*. Tudo isso introduz na relação com a arte algo que nenhum algoritmo consegue reproduzir inteiramente: contexto.

E talvez isso esteja também mudando o que significa colecionar.

Uma nova geração de colecionadores não chega necessariamente à arte pela mesma porta das anteriores. Pode chegar pela moda, pelo design, pela arquitetura, por uma viagem, por um hotel, por uma conversa ou por uma visita a um ateliê. A obra continua no centro, mas a relação que se constrói ao seu redor passou a fazer parte do desejo.

Do Brasil à Europa, essa procura por experiências mais próximas convive, curiosamente, com um mercado cada vez mais global. Quanto maior a circulação, maior parece ser a vontade de encontrar aquilo que não é replicável.

Lisboa me oferece um lugar particularmente interessante para observar esse movimento. É internacional sem ter perdido completamente a escala humana. Artistas, ateliês, galerias, instituições, colecionadores e pessoas apenas curiosas ainda se cruzam com uma proximidade que cidades maiores às vezes já não permitem. Não é uma questão de estar no centro. É uma questão de conseguir chegar perto.

Talvez seja esse um dos paradoxos mais interessantes deste momento: nunca tivemos tanto acesso à arte e, ainda assim, procuramos cada vez mais presença.

Quando quase tudo pode ser visto a partir de qualquer lugar, estar verdadeiramente perto se tornou raro.

E talvez seja isso também o que estamos começando a colecionar.


Ana Rita Rodrigues

Curadora de arte

Ana Rita Rodrigues

Ana Rita Rodrigues da Silva é fundadora e CEO do Lisbon Art Office, plataforma independente de curadoria e art advisory dedicada ao desenvolvimento de projetos de arte contemporânea em Portugal e internacionalmente. Curadora, art advisor e marchand d’art, trabalha na interseção entre artistas, colecionadores, empresas e instituições, desenvolvendo estratégias que posicionam a arte como ferramenta de diferenciação, identidade e criação de valor. Acompanha de perto o panorama artístico internacional e escreve regularmente sobre arte contemporânea, mercado da arte e cultura visual.

Sobre o Lisbon Art Office
O Lisbon Art Office (LAO) é uma plataforma portuguesa de curadoria, art advisory e desenvolvimento de projetos de arte contemporânea. Colabora com artistas, colecionadores, empresas, marcas e instituições culturais, criando projetos que aproximam a arte dos territórios empresarial, institucional e social.
Nesta coluna, o LAO propõe um olhar informado sobre os artistas, os movimentos e as ideias que estão a moldar a arte contemporânea em Portugal e no panorama internacional.